segunda-feira, 13 de setembro de 2010

57. Tenho os meus direitos


Mô Quiridu,

Onti di tardi, a Joaquina mi convidô pra nój dá um passeio no Centrinho da Lagoa. Nu começou Ô até pensei im nô í, máj acabei danu o braçu a toucê. A Joaquina adora revirá uma lojinha i Ô fico todo infesadu cum issu. Intendesse! Tenj qui vê quanu ela entra no AUMAZÈM DA LAGOA, a loja da Dona Angila. Ela bixbilhota, vira aj cosa di ponta cabeça, bota reparu im tudo i nô compra nada, a malina.

Nój tava passanu na frente do Aumazém i ela si atiro-se prá drentu. Nissu Ô disse qui ia inxperá ali noj café, na frenti do poxtu, nô tem!

Peguei um cafezinho, pra mim tomá, i mi acroquei prá apreciá oj movimento. Domingu é um entra i sai di carro, por ali, qui dá di ficá abobado.

Já cô nô tinha nada u qui fazê, comecei a oiá aj praca doj auto pra vê di ondi elej era. Tinha auto de gaúche, paulixta e paranaense, a reveria, rapaj. Maj o qui mi chamô a minha atençã foi uma Kombi aqui di Florianópij.
I vô ti diz, pra ti, qui nô é cá di que ela era um bijuzinho di tão dereitinha qui tava. U qui maj mi impressionô foi um decarque cá fotografia da minha família na bunda da Kombi, rapaj!

Ô fiquei fulo, anotei a praca i percurei pelo dono da Kombi no DETRAN, afinali tenho qui preseuvá oj meu dereito di imagê. Liguei pro dono do veíco i ele me disse, pra mim, que ia tirá o decarque do carro maj, mesu ansim, ia me pagá pra muié dele continuá usanu a nossa foto.

Preguntei se ela ia usá o decarque na frenti o no traseiro do carro dela. Ele me arexpondeu que ela já tinha feito a tatuagi no traseiro. Então Ô disse prá ele qui nô sabia qui si fazia tatuagi em carro.

O disinfelix deu uma risadinha, mi preguntô quem me disse, pra mim, que a tatuagi era no traseiro do carro i dexligô na minha cara.

Traduzindo....

Meu Querido,

Ontem a tarde, a Joaquina me convidou par darmos um passeio no centrinho da Lagoa. No começo até pensei em não ir, mas acabei concordando. A Joaquina adora revirar uma lojinha e eu fico sem jeito com isso. Entendeste! Tens que ver quando ela entra no Armazém da Lagoa, a loja da Dona Ângela. Ela bisbilhota, vira as coisas de pernas para o ar, mexe em tudo e não compra nada, a malvada.

Nós estávamos passando em frente ao Armazém e ela jogou-se para dentro. Nisto eu disse que iria esperar no café, em frente ao posto.

Peguei um cafezinho, para tomar, e me acocorei para apreciar o movimento. Domingo é um entra e sai de carro, por ali, que dá para ficar tonto.

Já que não tinha nada para fazer, comecei a olhar as placas dos automóveis para ver de onde eram. Tinha carro gaúcho, paulista e paranaense, aos montes. Mas o que mais me chamou a atenção foi uma Kombi, aqui de Florianópolis.

E vou te dizer que não é porque ela estava super bonita e conservada. O que mais me chamou a atenção foi um adesivo com a foto da minha família na “ bunda” da Kombi, rapaz.

Fiquei possesso, anotei a placa e procurei pelo dono, junto ao DETRAN, afinal tenho que preservar os meus direitos de imagem. Liguei para o proprietário do veículo e ele me disse que iria retirar o adesivo de seu carro, porém, pagaria para que sua esposa continuasse a usar nossa foto.

Perguntei se ela usaria o adesivo na frente ou no traseiro de seu carro. Ele respondeu que ela já havia feito a tatuagem no traseiro. Então, eu disse que não sabia que se fazia tatuagem em carros.

O infeliz deu uma risadinha, me perguntou quem havia me falado que a tatuagem era no traseiro do carro e desligou na minha cara.

domingo, 12 de setembro de 2010

56. Conta outra...


Mô Quiridu,

Fui levá o Mandrião prá dá uma aliviada i o bicho disapareceu-se da minha frente. Aquilo é lento qui é uma porca, maj mi cegô i Ô nô vi nem o cheru du atentado. O nô fij quextâ di percurá muito i já ia vortanu pra casa, quanu o Crebe me ligo pra mim. Nô tem?


Crébe: Alô Ixtepô, ej tu?
Ixtepô: Quem havéra di sê, rapaj?
Crébe: Me dij uma coisa pra mim: Tu andaj naj redondeza aqui di casa?
Ixtepô: Cá di que tu quéj sabê?
Crébe: É qui tem um guapeca inguli o Mandrião si avançanu im mim.

No que viro aj coxta, lá tava o mandrião em pé, roxnanu pru Crébe. O Dixfaucei e arexpondi a pregunta:

Ixtepô: Crebe, mô quiridu, na verdadi Ô to in casa, joganu um dominozinho cá Joaquina. Intendesse?
Crébe: Nô menti qui é pecadu, rapaj. O cachorro na minha frente é aj fuça do Mandrião.
Ixtepô: Seje bobo, o Mandrião tá aqui in casa, no colo da Joaquina.
Crébe: Será si é?
Ixtepô: Claro qui é, sô abobado.
Crébe: Intão tá!
Ixtepô: Maj me dij pra mim, o cachorro que tá ti apurrinhanu qué comê o osso qui o Onodi tem na boca?
Crébe: Nô rapaj, ele comeu o mô Òquimem i agora tá di zóio no mô celulari.
Ixtepô: Intendi, Intendesse?
Crébe: Ixtepô, cume qui tu sabej qui o Onodi tá cum osso na boca?
Ixtepô: Dixcurpa Crébe, a ligaçã tá ruim vô tê qui dixligá, mô quiridu.
Crébe: Ixtepô, sô degranido, a tua discurpa inxfarrapada nem esse tô purguentu, com bucho di avextruj, consegui inguli.

Traduzindo.....

Meu Querido,

Fui levar o Mandrião para fazer as necessidades e o animal desapareceu da minha frente. Ele é lento que é uma porca, mas me cegou e não senti, nem mais, o seu cheiro. Não fiz questão de procurar muito e já estava voltando para casa, quando o Crébe me ligou.

Crébe: Alô Ixtepô, és tu?
Ixtepô: Quem haveria de ser?
Crébe: Me diga uma coisa: Tu andas nas redondezas aqui de casa?
Ixtepô: Porque queres saber?
Crébe: É que tem um vira-latas igual o Mandrião avançando em mim.

No que viro às costas, vejo o Mandrião, em pé, rosnando para o Crébe. Eu disfarcei e respondi sua pergunta:

Ixtepô: Crebe, meu querido, na verdade eu estou em casa, jogando dominó com a Joaquina. Entendeste?
Crébe: Não mente que é pecado, rapaz. O Cachorro a minha frente é a cara do Mandrião.
Ixtepô: Não seja bobo, o Mandrião está aqui em casa, no colo da Joaquina.
Crébe: Será ?
Ixtepô: Claro que está.
Crébe: Então tá!
Ixtepô: Mas me diga, o cachorro te incomodando está querendo comer o osso que o Onodi tem na boca?
Crébe: Não rapaz, ele comeu o meu Walkman e agora está querendo o meu celular.
Ixtepô: Entendi. Entendeste?
Crébe: Ixtepô, como tu sabes que o Onodi está com um osso na boca?
Ixtepô: Desculpa, a ligação está ruim vou ter que desligar, meu querido.
Crébe: Ixtepô, seu infeliz, esta tua desculpa esfarrapada nem teu cachorro, com estômago de avestruz, consegue engolir.

sábado, 28 de agosto de 2010

55. Quem casa, quer casa.

Mô Quiridu,

Quanu Ô i a Joaquina casemu, nój era bem novinho i nô tinha um gato prá puxá pelu rabo. Cosa máj orrivi! A má mãe era virva i o mô pai já tinha batidu cá coçuleta. Intendesse? Ansim ela nôj convidô, oj dôj, prá morá numa casinha qui ficava noj fundu do terreno dela. Nô tem! A Joaquina nô quiria, di manera nenhuma, máj o di um jeito di convencê ela.

Ô nô perciso ti dizê, pra ti, qui a lua-di-méli foi pará nu inxpaço, rapaj. I nój passemu a noiti di núnpicia na casinha qui foi presenti da mãe. Di manhã bem cedinho, a Joaquina si levanto-si pra ariá oj denti i viu uma sombra numa daj janela. Ela arredô a coutina i viu dôj copu di suco, um cum gardanapi azuli, outro cum gardanapi cor-di-rosa.

Ela pegô oj dôj i levô prá genti bebê na cama i nój fiquemu muito facero cá atençã qui a mãe tinha noj dado. A Joaquina inda falô da sorti qui teve di arrumá uma sogra inguali essa i qui tava arrependida, di tê mi faladu qui perferia morá noj cafundó do judaj, do que no terreno da mãe.

Notro dia, lá pelaj sêj, a Joaquina si levanto-si cedo, dinovo, pegô o pinicu prá dispejá i encontrô oj copu di suco na janela outra vêj. Tomemu u suquinho na cama i drumimo máj um pocu. Nój tavu casadu há trêj dia i ainda nô tinha saído di casa, cá di quê a genti tavu muito acachapadu. Indendesse o quéj cô inxrpique?
Nój casemu numa sexta i isso já era segunda-fera di madrugada. Di repenti, uma batida forte náj tauba, oiei o relóge, i era sêj i meia. Deu di vê o vurto da mãe correndu i a sombra dôj copu, agora na janela du nossu quartu.

Tu sabij co sô pexcadori i qui nunca nô tirei féraj. Ah, para ôhí! A premera semana di casadu é sagrada i parecia cá mãe nô intendia disso, rapaj. Ela bateu lá im casa, pra intregá o mardito do suco todoj dia, até nój vortá pro trabaio, uma semana depôj.

Ô saía bem cedinho prá pexcá i a Joaquina prá fazê renda, junto caj amiga. Lá pelaj dej, nój vortava i sempre incontrava oj dôj copo di suco côj guardanapi azuli i rosa, agora im cima da mesa.

Sabi cô goxtava daquilo. Nô dá di dizê qui a Joaquina goxtava tomem, oh! Na verdadi ela odiava, inda máj qui a mãe começô a arrumá a casa, quanu ia dexá o suco. Ô nem arreparava, máj a Joaquina dizia qui tava tudo mexidu. Cheguemo a dixcuti pur causa disso i ela disse cô era um mimadu, cheiu di barda.

Um dia a Joaquina nô foi trabaiá i fico inxcondida só inxperanu a mãe chegá. Premero ela armo o engodo i trocô tudo, o que a véia tinha arrumado, di lugari. No deu outra, a mãe chego, largô oj copu na mesa i barreu a sala da casinha. Nu qui ela foi arredá o sofá, a Joaquina apareceu i gritou:

Joaquina: QUE QUI A SENHORA TÁ FAZENU AQUI?
Sogra: Quéj mi matá di suxto sua degranida? Ô só vim aqui pra deixá o suquinho di vocêj.
Joaquina: Fique sabenu co nô quero máj essa porcaria di suquinho. Nô quero máj, intendesse?
Sogra: Intendi!

Quanu cheguemu im casa no otro dia, depôj do ocorrido, em cima da mesa só tinha um copu di suco i cum guardanapi azuli. A Joaquina viro aj coxta, saiu i alugô uma pecinha na casa duma visinha. Nój moremu lá por sêj mêj, máj até hoje a Joaquina nô podi nem vê suco no café da manhã.

Traduzindo.....

Meu Querido,

Quando eu e a Joaquina casamos, eramos bem novinhos e não tínhamos um gato para puxar pelo rabo. Coisa horrível! A minha mãe era viúva e meu pai já havia morrido. Entendeste? Assim, ela nos convidou, os dois, para morar numa casinha que ficava aos fundos do terreno dela. A Joaquina não queria, de forma alguma, mas dei um jeito de convencê-la.

Eu não preciso te dizer que nossa lua-de-mel foi para o espaço, rapaz. E nós passamos a noite de núpicias na casinha que foi presente da mãe. De manhã cedo, a Joaquina se levantou para escovar os dentes e viu uma sombra em uma das janelas. Então afastou a cortina e viu dois copos de suco, um com guardanapo azul, outro com guardanapo cor-de-rosa.

Ela pegou os dois copos e levou para bebermos na cama, nós ficamos muito felizes com a atenção prestada por minha mãe. A Joaquina ainda falou da sorte que teve em conseguir uma sogra como esta e que estava arrependida, por ter falado que preferia morar isolada, do que no terreno da minha mãe.

No outro dia, perto das seis horas, a Joaquina levantou-se cedo, novamente, pegou o penico para despejar e encontrou os copos de suco, na janela, outra vez. Tomamos o suco na cama e dormimos mais um pouco. Estávamos casados há três dias e ainda não tínhamos saído de casa, porque estávamos muito cansados. Entendeste ou queres que explique?

Casamos numa sexta-feira e já era segunda de madrugada. De repente, uma batida forte nas tábuas da parede, olhei o relógio e eram seis e meia. Deu para ver o vulto da mãe correndo e a sombra dos
copos, agora na janela do nosso quarto.

Tu sabes que sou pescador e que nunca tirei férias. Mas espera ai! A primeira semana de casado é sagrada e parece que a mãe não entendia isto, rapaz. Ela bateu lá em casa para entregar o maldito do
suco todos os dias, até voltarmos para o trabalho, uma semana depois.

Eu saía bem cedo para pescar e a Joaquina para fazer renda, junto com as amigas. Perto das dez, nós voltávamos e sempre encontrávamos os dois copos de suco o guardanapo azul e rosa, agora sobre a mesa.

Sabe que eu gostava daquilo. Não da para dizer que a Joaquina gostava também. Na verdade ela
odiava, ainda mais que a mãe começou a arrumar a casa, quando ia deixar o suco.

Eu não reparava, mas a Joaquina dizia que tudo estava mexido. Chegamos a discutir por causa disto e ela disse que eu era mimado e cheio de vontades.

Um dia a Joaquina e não foi trabalhar e ficou escondida, esperando a mãe chegar. Primeiro
ela jogou a isca e trocou tudo, o que a velha havia arrumado, de lugar. Não deu outra, a mãe chegou, largou os copos sobre a mesa e varreu a sala da casinha. No que ela foi afastar o sofá, a Joaquina apareceu e gritou:

Joaquina: O QUE A SENHORA ESTÁ FAZENDO AQUI?
Sogra: Queres me matar de susto sua desgraçada? Eu só vim aqui para deixar o suco de vocês.
Joaquina: Fique sabendo que eu não quero mais esta porcaria de suco. Não quero mais, entendeste?
Sogra: Entendi!

Quando chegamos em casa no outro dia, depois do ocorrido, sobre a mesa havia só um copo de suco e com guardanapo azul. A Joaquina virou as costas, saiu e alugou uma pecinha na casa de uma vizinha. Moramos lá por seis meses, mas até hoje a Joaquina não pode ver qualquer tipo de suco no café da manhã.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

54. Pensamentos de um não-candidato

Mô Quiridu,

Domingo passadu Ô di uma intrevixta, pro Jornal do Canal, inxpricanu pruque nô sô candidato naj enleiçã 2010. O reporti fêj a matéria i dixtacô argumja daj minha frázia, qui agora divido cuntigo. Intendesse!

1. “DEPÔJ DAS REDE DE RELACIONAMENTU, VIRÃO AJ TARRAFA DE RELACIONAMENTU.”
Sobre o futuro da Internet, Orkut, Facebook e Twitter.

2. “SÓ O PIRÃO DI NAILO É 100% RECICRÁVE. INTENDESSE?”
Sobre a degradação dos plásticos na natureza.

3. “PEIXE BOM É MORTO, FRITO I COM PIRÃO.”
Sobre a proliferação da cozinha oriental em Florianópolis.

4. “ ONODI,ONODI,ONODI . QUÉJ CÔ REPITA?”
Sobre a questão de ter dado apoio a determinado candidato político.

5. “PEXCO, LOGO INZIXTU!”
Sobre a sua filosofia de vida.

6. “PARECIA UM TAINHA OVADA. CREDO!”
Sobre menino com verminose no Sul da Ilha.

7. “UMA CANOA DUM PAU SÓ, UMA KOMBI, UM CURIÓ E UM CACHORRO PAPA-OVU.”
Sobre a sua lista de bens.

8. “SI PREGUNTÁ DINOVO, DÔ-TI CÁ CHUMBADA DA TARRAFA NOJ BEIÇU.”
Sobre a hipótese de sua candidatura.

9. “ PEXCADORI NÔ MENTE, QUIRIDU! SÓ OMENTA UM POQUINHU.”
Sobre a relação da mentira com a pescaria.

10. “ Ô TENHU MÁJ O QUI FAZÊ. TU TENJ TEMPO NÉ,ÔH!”
Sobre a possibilidade de alongar a entrevista.
Traduzindo.....

Meu Querido,


Domingo passado fui entrevistado pelo Jornal do Canal e expliquei porque não sou candidato nas eleições 2010. O repórter fez a matéria e destacou algumas frases, de minha autoria, as quais divido contigo agora.

1. “DEPOIS DAS REDES DE RELACIONAMENTO, VIRÃO AS TARRAFAS DE RELACIONAMENTO.”
Sobre o futuro da Internet, Orkut, Facebook e Twitter.

2. “SÓ PIRÃO DE NAYLON É 100% RECICLÁVEL. ENTENDESTE?”
Sobre a degradação dos plásticos na natureza.

3. “PEIXE BOM É MORTO, FRITO E COM PIRÃO.”
Sobre a proliferação da cozinha oriental em Florianópolis.

4. “ EU NÃO DEI, NÃO DEI, NÃO DEI. QUERES QUE EU REPITA?”
Sobre a questão de ter dado apoio a determinado candidato político.

5. “PESCO, LOGO EXISTO.”
Sobre a sua filosofia de vida.

6. “PARECIA UM TAINHA COM OVA. CREDO!”
Sobre menino com verminose no Sul da Ilha.

7. “UMA CANOA DE UM PAU SÓ, UMA KOMBI, UM CURIÓ E UM CACHORRO VIRA-LATAS.”
Sobre a sua lista de bens.

8. “ SE PERGUNTAR NOVAMENTE, TE BATO COM A CHUMBADA DA TARRAFA NA BOCA.”
Sobre a hipótese de sua candidatura.

9. “ PESCADOR NÃO MENTE, QUERIDO! SÓ AUMENTA UM POUCO”
Sobre a relação da mentira com a pescaria.

10. “ TENHO MAIS O QUE FAZER. TU TENS TEMPO!”
Sobre a possibilidade de alongar a entrevista.

sábado, 21 de agosto de 2010

53. Osso duro de roer

Mô Quiridu,

Era cedinho da manhã i Ô tavu perparu o café no nosso fogão à lenha. Ovi um baruio na porta i di uma inxpiadinha pelaj flexta dajs tauba. Era o Mandrião, nosso cachorro, querenu entra. Pensei que o bicho devia tava cum fomi, perparei a cumidinha dele i deixei ali péuto do fogo, pru causo qui tava um dia muito friu, rapaj.

O guapéca entrô, maj invéj di i cumê, ele correu dereto na minha dereçã. Ô nô sô di dá confiança pra cachorro i disse pra ele i simbora. Nissu, o Mandrião inveredô dereto pra saída i começô um vai i vem sem fim.

O animarzinho corria na porta e di vorta im mim, na porta i em mim, na porta i em mim, na porta i em mim. Intendesse o quéj cô repita?

Foi ansim, até Ô atiná qui ele tavu querenu mi amoxtra arguma côsa, du lá di fora. O carculei qui divia di sê argum gatu o otro bicho morto. Ladrão Ô sabia qui nô era, já que o Capitão Tainha tinha inxpantadu elej tudo daj nossa redondeza.

Quanu Ô cheguei na porta, deu di vê uma montuera di terra qui maj parecia o Morro da Lagoa. Nô tem? Ô si inrraiveci tantu, máj tantu, qui deu vontadi di saí no pau co meseravi do papa-ovo. O Mandrião sempre cava unj buraquinho, máj dessa vêj ele tinha inzagerado. Dava di interrá um baleote drentu daquele baito buracão .

Nu cô ralhei co cahorro, ele cixpô pra traj do monte de terra i Ô corri atráj dele. Mô quiridu, tu nô acreditaj no qué cô atropeçei. Era um baita dum osso, im forma di fouquilha, qui o Mandrião tinha disinterrado ali no terreno di casa.

Ô nunca nô tinha vixto aquele tipe di osso, rapaj. Era tão, tão grande, dum bicho do mar, nô era di baleia, qui di baleia Ô conheçu deuxdi rapaj piqueno. O osso parecia uma expinha di pexe gigante. Nô tem!

Ô chamei o Crébe prá dá uma oiada. O Crébe troxe o Badejo prá confirmá. O Badejo convidô um professori da UDÉXQUI pra dizê o qui era. O professori da UDÉXQUI requisitô um Dotori da UFÉXQUI pra analisá. O Dotori da UFÉXQUI contatô uns pessoal da DIXCOVERI TIÉNEL. Máj quem chego mesu foi oj reporti da ERIBESSI. Im pocoj minute nój já tavu naj televisã do mundo todo.

Oj políticu ninguém chamô, máj sacumé mô quiridu. Im épuca di enleiçã, elej sempre arranju um jeito di aparecê i ficá péuto daj massa. Im quextã di segundoj tinha máj candidato do qui gente lá em casa. Ansim, si formo-si um banzé i quem passava, na frente, si atirava pra drentu só prá vê o que tavu acontecenu.

Do nada, uma ventania, qui máj parecia uma lextada, começô sem nehuma inxplicaçã. Era um olicótio qui aposô bem im cima do monte de terra ejcavada pelo Mandrião. Mal aj élicia do avião di roxca pararu i um senhor di idade, com uma bengala que tinha uma bola di vridu com uma moxca drentu, deceu. Ele falava meio inrolado, tarvej inglêj, alemão o inxpanhol. O que importa é cô no intendia côsa nenhuam, rapaj.

Ele devia di sê conhecido, afinali oj professorí, oj dotorii i oj reporti cercaru o coitado bem rapidinho. Oj políticu aproveitaru pra tirá umaj foto apeutanu a mão do Omi, qui fico por ali unj dej minute i pego o rumo di vorta.

Preguntei pro Crébe quem era o disinvelij, ele pregunto pro Badejo, que falô com o professori da UDÉXQUI, qui confirmô co Dotori da UFÉXQUI. O tali du omi era um parentólogo, o seje, um tipe de centixta qui inxtuda fóssio.

O inxtudiosu veiu até a Barra da Lago prá confirmá o achado arquelógio do Mandrião. Si tratava-si duma inxpinha de MUGILOSSAURUS BRASILIENSIS REX, um antepassado do Mugil Brasiliensis, a tainha. Ele até levo um pedacinho do osso pra usá num projeto qui ele tá fazendu num tali di JURASIM QUI PARQUI.

Pra noj homenagiá, o centixta disse co nome vurgá do Mugilossaurus Rex ia sê IXTEPOSSAURO.

Vô ti dá nome vurgá, oh! Vurgá é a mãe dele que é máj pirua. Indendesse?

Traduzindo.....

Meu Querido,

Era cedo da manhã e eu estava preparando o café em nosso fogão à lenha. Ouvi um barulho na porta e dei uma expiada pela fresta das tábuas. Era o Mandrião, nosso cachorro, querendo entrar. Pensei que o bicho devia estar com fome, preparei a comida e deixei perto do fogo, porque estava um dia muito frio, rapaz.

O vira-latas entrou, porém ao invés de comer, correu em minha direção. Eu não sou de dar confiança para cachorro e disse para ele ir embora. Nisto, o Mandrião se direcionou direto para a saída e começou um vai e vem sem fim.

O animalzinho corria da porta e voltava para mim, na porta e para mim, na porta e para mim, na porta e para mim. Entendeste ou queres que eu repita?

Foi assim, até eu entender que ele estava querendo me mostra algo, do lado de fora. Eu calculei que devia ser algum gato ou outro animal morto. Ladrão eu sabia que não era, já que o Capitão Tainha havia espantado todos eles de nossa região.

Quando eu cheguei na porta, observei um monte de terra que mais parecia o Morro da Lagoa. Fui tomado por tanta raiva, tanta raiva, que deu conta de sair na porrada com o miserável do cachorro. O Mandrião sempre cava uns buraquinhos, mas desta vez tinha exagerado. Dava para enterrar um filhote de baleia naquele imenso buraco.

No que eu gritei com o cachorro, ele escapou para trás do monte de terra e eu o segui. Meu querido, tu não acreditas no que tropecei. Era um enorme osso, em forma de forquilha, que o Mandrião tinha desenterrado no terreno de casa.

Eu nunca havia visto aquele tipo de osso, rapaz. Era imenso, de um animal do mar, mas balei não era, porque os de baleia eu conheço desde menino. O osso parecia uma espinha de peixe gigante.

Eu chamei o Crébe para dar uma olhada. O Crébe trouxe o Badejo para confirmar. O badejo convidou um professor da UDESC para dizer o que era. O Professor da UDESC requisitou um Doutor da UFSC para analisar. O Doutor contatou um pessoal da Discovery Channel. Porém quem chegou mesmo foram os repórteres da RBS. Em questão minutos nós estávamos em todas as televisões do mundo.

Os políticos ninguém chamou, mas sabe com é meu querido. Em época de eleição, eles sempre arranjam uma forma de ficar perto das massas. Em questão de segundos havia mais candidatos do que gente lá em casa. Assim, se formou uma confusão e
que passava, em frente, entrava para ver o que estava acontecendo.

De repente, uma ventania, que mais parecia vento leste, começou sem explicação. Era um helicóptero que pousou sobre o monte escavado pelo Mandrião. Mal as hélices do helicóptero pararam e um senhor de idade, com uma bengala que tinha uma bola de vidro e uma mosca dentro, desceu. Ele falava meio enrolado, talvez inglês, alemão ou espanhol. O que importa é que eu não entendia coisa nenhuma, rapaz.

Ele devia ser conhecido, afinal os professor, os doutores e os repórteres cercaram o coitado bem rápido. Os políticos aproveitaram para tirar algumas fotos apertando a mão do homem, que ficou por ali uns dez minutos e foi embora.

Perguntei para o Crébe que era o infeliz, ele perguntou para o Badejo, que falou com o professor da UDESC, que confirmou com o doutor da UFSC. O tal homem era um paleontólogo, ou seja, um tipo de cientista que estuda os fósseis.

O estudioso veio até a Barra da lagoa para confirmar o achado arqueológico do Mandrião. Se tratava de uma espinha de MUGILOSSAURUS BRASILIENSIS REX, um antepassado do Mugil Brasiliensis, a tainha. Ele até levou um pedacinho do osso para usar em um projeto que está fazendo em um tal de Jurassic Park.

Para nos homenagear, o cientista disse que o nome vulgar do Mugilossaurus Rex seria IXTEPOSSAURO.

Vou te dar nome vulgar. Vulgar é a mãe dele que é mais perua. Entendeste?