sábado, 28 de novembro de 2009

35. O vestido de noiva

Mô Quiridu,

O mô grandi amigu Crébe vai se casá. Côsa linda, nô tem! Nój temo acompanhanu oj perparativu, tudo, dêj du cumeçu i sabemu qui vai sê um casamento abençoado por Deus. Agora, daj vêj, da di vê côj noivo ficu neuvoso, afinali tem qui aprerpará uma muntuera di cosa, é conveuçá cô Paxtô, é arrumá a ixgreja, a fexta. I o vextido da rapariga então? Exte sim deu pano pra manga, o menoj foi o qui ele mi falô pra mim numa conveuça, ansim:

Crébe: Ixtepô, mô quiridu! Tu nô sabej a corriria qui nój andemo, nô tem?
Ixtepô: Pelu um acauso Ô sô cego, so abobado.
Crébe: Então, então! Já tamu até meio acachapado de tanto corrê pela ai, apercuranu o vextido di noiva, rapaj.
Ixtepô: Oióió! Vaj me dizê, pra mim, qui nô deu di incontrâ nada do agradu, é issu qui tu váj mi dizê?
Crébe: Nô minerva, rapaj! Claro qui nòj incontremo, maj ô é tudo oj zóio da cara. Intendesse?
Ixtepô: Maj a tua noiva é piquininha, no é? Então o vextido tem qui saí barato, afinali sô percisa uma nisquinha di panu pra fazê!
Crébe: Sô tanso! Oj inxtilixta cobru pelo desenho e pelo feitiu, ixto é o maj caro.
Ixtepô: I tu já pensasse em alugá o vextido pra ela, ia sê bem maj baratu.
Crébe: É maj tu mexmo sabej que ela é pequininha, vai sê impossíve encontrá um vextido di noiva do tamanho dela.
Ixtepô: Ô tenho uma idéia!
Crébe: Disimbucha, to neuvoso.
Ixtepô: Si não dá di alugá um vextido di noiva, então dexa qui alugo pra ela um vextido di daminha e dote de presente, quiridu!

Traduzindo.....

Meu Querido,
O meu grande amigo Crébe vai se casar. Coisa linda. Temos acompanhado os preparativos desde o início e sabemos que será abençoado por Deus. Contudo, dá para perceber que os noivos estão um pouco nervosos, afinal, tem de preparar muitas coisas. É conversar com o Pastor, acertar as questões da Igreja, a festa, etc. E o vestido da noiva então? Este sim está dando trabalho, ao menos foi o que ele me falou em uma conversa que tomou o seguinte rumo:

Crébe: Ixtepo, meu querido!
Tu sabes a correria que estamos, não sabes?
Ixtepô: Por acaso eu não enxergo seu tolo?
Crébe: Então! Já estamos meio desanimados de tanto procurar vestido de noiva.
Ixtepô: Olha só! Vais me dizer que não encontraram nada do gosto de vocês, é isto?
Crébe: Não me deixa mais nervoso! Claro que encontramos mas é tudo muito caro.
Ixtepô: Mas a tua noiva é pequeninha, não é? Então o vestido tem que ser barato, afinal precisa de pouco tecido para confeccionar.
Crébe: Seu tolo! O estilistas cobram pelo modelo e feitio, isto é o mais caro.
Ixtepô: Já pensaste em alugar o vestido para ela? Ia sair muito mais barato.
Crébe: Sim, mas tu mesmo sabes que ela é bem pequena, vai ser impossível encontrar um vestido de noiva do seu tamanho.
Ixtepô: Eu tenho uma idéia!
Crébe: Fala estou ansioso.
Ixtepô: Se não dá para alugar um vestido de noiva, então deixa que eu alugo um vestido de daminha e dou de presente, quiridu!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

34. Uma foto três por quatro


Mô Quiridu!

Ô já ti falei pra ti qui o Capitão Tainha e o Rapaj Berbigão elegero o Neto pra sê o retratixta oficiali delej, nô tem? Pôj então rapaj, na semana passada nój visitemu o Diário Catarinense, pro o Neto oferecê umaj foto, doj Herói Manézinho , pra elej apubricá. Nój fomo muito bem recebido peloj jornalixta. Tamém, já saímo até na coluna do Cacau Menêj, né oh! O redatori do jornali quij logo vê aj foto i saiu apreguntanu:

Redator: Meus caros vocês tem muitas fotos do Capitão e do Berbigão?
Ixtepô: Si temo quiridu! É foto delej trenando oj gorpe, aperparanu aj inxtratégia di ataque, comenu um pexinho frito com pirão di nailo, até foto duj dôj nadanu na Lagoa, nój temo. Entendesse?
Redator: Mas então me deixem ver as fotos.
Neto: Bah, carinha! Eu até posso te deixá vê elas mãs, na boa, eu vim aqui pra te oferecer uma foto tri especial.
Redator: E o que ela tem de especial?
Neto: Tipo assim, não é uma foto em que aparecem somente o Capitão Tainha e o Rapaj Berbigão, é bem mais que isto.
Redator: Mas então vamos vê-la.
Ixtepô: Pode pará pelai sô mandrião. Premero nój percisemo aceutá oj preço.
Redator: E o que vocês estão pensando?
Ixtepô: Nój tamu querenu quinhentus reau por herói qui aparecê no retrato.
Redator: Tá feito.
Ixtepô: Como ansim ta feito? Tu nô vaj pechincha nadinha, quiridu?
Redator: Não! O Negócio está fechado.

O Neto mi oiô pra mim cô rabo du zóio i deu di apercebê qui Ô tinha fazido cagada i cobrado raso di barato. Ô tentei arrevertê a situaçã, amoxtrei a foto pro redatori i disse:

Ixtepô: É doj mil reau, quiridu.
Redator: Perai, Ixtepô! Você disse que eram quinhentos reais por herói. Aqui eu só vejo o Tainha, o Berbigão e o Luciano Hulk. Então eu lhes devo apenas um mil e quinhentos reais.
Ixtepô: Pelum acausu nô taj querenu levá o Homi Invisive di graça, taj?

Traduzindo.....

Meu Querido,

Eu já te falei que o Capitão Tainha e o Rapaz Berbigão elegeram o Neto para ser o ftógrafo oficial da dupla. Pois então, semana passada fomos visitar o Diário Catarinense para oferecer algumas fotos dos Heróis Manézinhos para eles publicarem. Lá, fomos muito bem recebidos pelos jornalistas. Bem, nós até já saímos na coluna do Cacau Meneses. O redator, do jornal, quis logo ver as fotos e foi logo perguntando:

Redator: Meus caros vocês tem muitas fotos do Capitão e do Berbigão?
Ixtepô: Se temos, querido! È foto deles treinandos os golpes,
preparando as estratégias de ataque, comendo peixe frito com pirão de nylon, até foto dos dois nadando na Lagoa nós temos.
Redator: Mas então me deixem ver as fotos.
Neto: Bom! Eu até posso deixar vê-las, mas eu vim aqui pra te vender uma foto muito especial.
Redator: E o que ela tem de especial?
Neto: Não é uma foto em que aparecem somente o Capitão Tainha, o Rapaj Berbigão é bem mais que isto.
Redator: Mas então vamos vê-la.
Ixtepô: Espere um pouco. Primeiro temos que acertar os preços.
Redator: E o que vocês estão pensando?
Ixtepô: Queremos quinhentos reais por cada herói que aparece na fotografia.
Redator: Tá feito.
Ixtepô: Como assim tá feito? Não vais pechinchar nada?
Redator: Não! O Negócio está fechado.

O Neto me olhou com o canto dos olhos e eu percebi que tinha feito porcaria e cobrado muito
barato. Tentei inverter a situação, mostrei a foto para o redator e disse:

Ixtepô: São dois mil reais, querido.
Redator: Perai, Ixtepô! Você disse que eram quinhentos reais por herói. Aqui eu só vejo o Tainha, o
Berbigão e o Luciano Hulk. Então eu lhes devo apenas um mil e quinhentos reais.
Ixtepô: Por acaso não estás querendo levar o Homem Invisível grátis, estás?

sábado, 7 de novembro de 2009

33. O Super-Herói da Ilha

Mô Quiridu,

Todo mundo véve falanu da violença e recramanu qui aj cidade tá ficanu cava vej máj inxculhanbada, nô tem! É invasã di morro aqui, droga ali, henlicópi arvejado acolá. Ansin nô dá, né oh? Vô ti dizê pra ti, qui pudia sê muito pio, nô fosse arguns cidadão dextemido que arrixco a vida pelo bem comum, daj pessoa i doj ser homanu.. São oj verdadero herói, aquelij qui nój devemo chamá di pauladinho maxcaradu, quiridu. Pior é qui muitaj vej nój nem ficamu sabenu qui elej inzéxti. Tu sabiaj qui Florianópij é cuidada, di dia, di noite i até di madrugada, por um herói anoinho? Nô sabiaj? Maj é quiridu, ti juro pra ti! I Nô vô revelá a indentidadia secreta dele, até pruque nô sei, máj nô posso deixá di ti falá dele pra ti. Entendesse?
Aj premera notiça di aparença dele foi lá prój lado da Barra da Lagoa. Sabe cumé qui é boato, né quiridu. Unj dizia qui tinha vixto bruxa, otroj assombraçã, até hixtória di lobisômi inventaru. O pobrema é qui ninguém tinha inxpricaçã pro vurto qui, andava aparecenu im cima daj casa, noj beco i naj servidã. Oj pessoal já andava tudo assuxtado i infesado querenu sabê quem ia pagá aj telha quebrada, rapaj.
Pru oto ladu, o povo começô a peucebê qui aquelij furtinho qui acontecia, vorta i meia, pararo de supetão. Nunca maj bifaro aj carçola da Dona Neca, ninguém maj mexeu noj ovo do Seu Dirço, qué dizê daj galinha do seu Dirço, i aj rede do Galego começaru a aparecê carregada di pexe dinovo, quiridu.
Degavazinho oj pessoal começaru a ligá aj côsa. Nô tem? A mesa assombraçã qui andava arrodiando a Barra, tomém tava inxpantanu oj ladrão. Foi quanu a poliça devurgô, no DC, o mixtério doj meliante cá boca cheia di inxcama.
Rapaj, já fazia uma muntuêra di semana qui oj policial encontrava arguns mau elemento, conhecidu, caj mão i coj pé amarrado i ca cabeça meia atolejmada. Elej diziu qui levaru uma biaba na boca, dum Homi pexe, qui si sumiu-se maj rápido do qui veio. Depôj acordaru meio tanso, com goxto i chero di pexe cru noj beiço inchado. O maj importante é cáj apariçã do maxcarado começaru a acontecê por toda a Ilha i oj excomungado doj marginarzinho dero di disaparecê oj poço.
Pôj esse maxcarado tem nome, quiridu! Ele si chama-se CAPITÃO TAINHA e nô age sozinho. Ele tem um parceiro qui oxilia in todoj oj caso, o seu amigo e fiel tarrafeiro, O RAPAJ BERBIGÃO.
Cumé cô sei dissu? Ve só, uma noite dessaj o Neto foi na casa do Badejo pra tirá umaj foto daj criança dele. Quanu vortava pra casa, ouviu um baita ixcarcéu num terreno baldo ali perto. Nô deu outra, nego. Lhá tava um mandrião amarrado, cá boca toda inxcangalhada. Ele chegô perto pra vê o qui era, nissu uma baita sombra se projeto-si im cima dele. Éru elej dôj: TAINHA E BERBIGÃO.
Achaj qui elej deru uma camassada di pau no Neto? Só pro teuj córno meso.
Elej pidiru foi pro Neto sê fotógrafo oficialli delej. O rapaj aceitô i tiro uma missidade di retrato. Tá tudo lá in casa.
Tamu até pensanu im mandá argumaj pro Cacau Menêj.

Vai qui ele pubrica.

Traduzindo .....

Meu Querido,

Todo mundo fala da violência e reclama que as cidades estão ficando cada vez mais descuidadas. É invasão de morro por aqui, drogas ali, helicóptero alvejado por lá. Assim não dá! Mas vou te dizer que poderia ser pior, não fosse por alguns cidadãos destemidos que arriscam a vida pelo bem comum, pelas pessoas e pelos seres humanos também. São os verdadeiros heróis, aqueles que poderíamos chamar de paladinos mascarados. O pior é que por muitas vezes não sabemos de sua existência. Sabias que Florianópolis é guardada de dia, a noite e até de madrugada por um herói anônimo? Não sabias? Mas é, te juro! Eu não revelo a identidade secreta dele, até porque eu não a conheço, porém não posso deixar de te falar sobre ele. Entendeste?
A primeira notícia de aparição dele foi lá na região da Barra da Lagoa. Mas sabes como é boato. Alguns diziam ter visto bruxa, outros assombração, até história de lobisomem houve. A questão é que não havia explicação para um vulto que aparecia sobre as casas, nos becos e nas servidões. O pessoal estava assustado e bravo pois queria saber quem pagaria as telhas
quebradas.
Por outro lado o povo começou a perceber que os pequenos furtos, que aconteciam vez por outra, pararam repentinamente. Nunca mais roubaram as calcinhas de Dona Neca, não mexeram mais nos ovos do Seu Dirço, melhor nos ovos das galinhas dele e, as redes do Galego começaram a aparecer carregadas de peixes, novamente.Aos poucos as pessoas começaram a ligar os fatos. A mesma assombração que rondava a Barra estava espantando os ladrões. Foi nesta época que a polícia divulgou, no DC, o mistério dos bandidos com a boca cheia de escamas.
Rapaz, fazia tempo que os policiai vinham encontrando alguns maus elementos, já conhecidos, com mãos e pés amarrados, e com a cabeça zonza. Eles afirmavam que haviam sido golpeados na boca por um homem peixe, que sumiu tão rápido, quanto apareceu. Mais tarde acordaram tontos, com gosto e cheiro de peixe cru na boca. O mais importante é que as aparições do mascarado se tornaram freqüentes na ilha e os infelizes dos marginais foram desaparecendo aos poucos.
Pois este mascarado tem nome, querido! Ele se chama CAPITÃO TAINHA e não atua sozinho. Tem um parceiro que o auxilia em todos os casos, o seu amigo e fiel tarrafeiro, o RAPAJ BERBIGÃO.
Como eu sei disto? Bom, uma noite destas o Neto foi à casa do Badejo para fotografar as crianças dele. Quando voltava ouviu
uma barulheira em um terreno baldio ali por perto. Foi tiro certo, lá estava um malandro amarrado, com a boca toda machucada. O Neto se aproximou para ver o que era e nisto uma sombra enorme o emcobriu. Eram eles dois: TAINHA E
BERBIGÃO.
Pensas que eles agrediram o neto? Claro que não.
Eles pediram foi para o Neto ser o fotografo oficial deles. O rapaz aceitou e fez uma enorme quantidade de fotos dos dois. Está tudo lá em casa.
Estamos até pensando em enviar algumas para o Cacau Menezes.

Vai que ele publica.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

32. Que exame é este?

Mô Quiridu,

A idade vem cheganu, i apesari da inxperiênça, junto vem umaj incomodaçãozinha tomém, né oh! Oj zóio já nô inchergo como antij, aj junta fico um poco emperrada, aj idéia atolexmada. I aj tarefa maj simplej, tipo governá um pexinho, si tornu-se impossívi, quiridu.
O pióri é oj monti di inxame qui percisemu fazê. Tem di consurtá praj vixta, coraçã, pressã arta, colexteroli, diabétia, sixtema neuvoso, isso si nô fumaj. Né quiridu! Si fumá ainda tem pineumolosgistica. Tenho di ti dizê prá ti qui esse nô é o mô caso.
A quextã é qui o mô Gernriata mi indicô, pra mim, um tar de Unrologista, rapaj. É qui além dessa montuera di inxame cô faço anuarmente, agora tenho di fazê um que Ô nunca nô fij. Intendesse! Inxami di próxta, quiridu.
O Dotori, inxplicô, inxplicô i Inxplicô o inxami pra mim umaj déj vêj, nô tem? Ô fiquei cabrêro i fij quextã di nô intendê o quele tava querenu mi dizê pra mim. Ô tive di oiá bem dentro duj zóio dele i aí dizê:
- É capaj meso cô vô dexa fazê uma cosa dessa im mim! Mi dixcurpa maj Ô nô sô desse tipe di omi, rapaj. O dotozinho deve di tá me confundinu cum argúem deferente. Vai percurá seuviço, vai.
O Degranido si assusto-se i ficô branco cá minha gritaria, rapaj. Máj ô nô sei cumé qui pode né, oh. Ele consiguiu mi acarmá i moxtrá u quantu a prevençã é importante pra evitá aj duença.
Ô mi convenci i disse pra ele qui ia marcá unrologista prun dia desse quarqué. Ele levantô o telefonio i ligo pra um médicu amigo dele. O malino mi marcô consurta pra duaj hora maj tarde.
Lhá fui Ô, cheio di pensamento tolo na cachola, visitá o tar du médicu. Maj Ô tavu cum baita medo era di chegá lá i o Dotori sê daquelêj omi giganti, quiném jogadori di baxqueti. Já imaginasse?
Cheguei no consurtório i mi apresentei-me prá recepcionixta. Sentei na sala di ixpera i comecei a sua frio, imaginanu qui o Oxcar, aquele da seleçã Brasilera, ia mi recebê di aventali branco, sorriso amarelo i uma bola alaranjada, pra gente fazê umaj cextinha antij do procedimento, quiridu.
Foi quanu a moça me chamou e disse pra Ô passá na sala do médicu. Ô Si levantei trenendo i me dirigi pra armação, agora nô tinha maj vorta. Pra ti vê, quanu abrí a porta do consurtório, lá tava ele sentado caj mão no borso. O dotori era bem piquininho, praticamente um anãozinho. Nô tem?
Ô pensei qui ixcapá di grandi, maj isto só até ele inxtendê a mão pra mi cumprimentá, quirido. Aj mãozinha dele pareciu duaj raqueta di tenij.
Ai nô dá né oh!

Traduzindo.....

Meu Querido,

A idade vem chegando e, além da experiência, vêm também alguns probleminhas. Os olhos não enxergam como antes, as juntas endurecem, a mente cansa. As tarefas simples, como limpar um peixe, podem se tornar imossíveis.
O pior é a quantidade de exames aos quais somos submetidos. Temos que consultar o especialista dos olhos, da pressão, do coração, colesterol, diabetes, sistema nervoso e isto se não fumamos. No caso dos fumantes ainda tem o pneumologista. Deste mal não sofro.
A questão maior é que meu geriatra me indicou um urologista. É que além de todos os exames rotineiros, devo me submeter a um que ainda não fiz. Exame de próstata.
O doutor me explicou o exame por várias vezes. Eu não fiz questão de entender nenhuma delas. Mas precisei olhar no fundo dos olhos dele e dizer:
É bem capaz que eu deixarei alguém fazer uma coisa dessas comigo. Me desculpa, mas não sou deste tipo de homem. O doutor deve estar me confundindo com outra pessoa. Vá procurar o que fazer!
Ele se assustou com minha gritaria, porém conseguiu me acalmar e provar o quanto a prevenção é importante para evitar as doenças.
Me convenci e disse que marcaria consulta com urologista um dia destes. Ele pegou o telefone e ligou para um médico amigo. O malvado marcou consulta pra duas horas mais tarde.

Lá fui eu, cheio de fantasias na cabeça, visitar o tal do médico. Mas o medo que eu tinha era de chegar lá e o doutor ser um homem gigante, tipo um jogador de basquete. Já imaginou?
Cheguei no consultório e me apresentei à recepcionista. Sentei me, na sala de espera, e comecei a suar frio. Estava imaginando o Oscar, aquele da seleção Braslileira, me recebendo de avental branco, sorriso amarelo e uma bola
alaranjada, para a gente fazer umas cestinhas antes do procedimento.
Foi quando a atendente me chamou e pediu para eu passar ao consultório. Me levantei tremendo e me dirigi ao abatedouro, pois não tinha mais volta. Quando abri a porta, lá estava o médico sentado, com as mãos no bolso. O doutor era muito
pequenino, quase um anãozinho.
Pensei que tinha me dado bem, mas isto só até o momento emque ele estendeu a mão para me cumprimentar.
As mãos dele pareciam duas raquetes de tennis.
Daí é difícil!!!!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

31. Um canto que encanta

Mô Quiridu,

Ô nô to querenu si inzibi nem contá vantage . Intendesse? Agora, vô ti dizê uma cosa pra ti! Curió bom inzéxti uma montuêra, maj inxpetacularí só tem um. O Fabojuno! Aquilo é um monxtru , arromba, dá um banho. O bichinho canta muito i nô importa o lugari, podi di sê lá em casa, na rua, nu curiódemo. Sêje ondi sêje, o degranido moxtra a fibra qui tem. Nô tem!
O Fabojuno já ganho tudo quantu é competiçã aqui in Florianópij, em São Paulo, no Rio de Janeiro. Bom, nój já andemo muito por ai e sempre vortemo do memo jeito. Ô cá gaiolha em cima da mão exparmada i ele meio carcundinha de tanta medaia apendurada no pexcoço.
Só prá ti tê uma idéia di comé qui ele é, vô ti contá uma cosa pra ti! No úrtimo concurso qui nój fumo, o Fabojuno cantô tanto, tanto, tanto, qui oj otro passarin, além di corrê da briga, botaru aj asa im cima da cabeça pra tapá aj oreinha i nô da di oví o Fabo.
Oj dono doj passarin ficaru abobadu co show do Curió da Barra da Lagoa. I nô deu outra, né quiridu! Choveu propoxta pelo mô curió. Oferecero uma camioneta quatru pru quatru, um sítiu im Paratí, um apartamento na Bera Mar. Vô ti dizê pra ti, qui Ô nem tentado fiquei. Arrecuzei todaj aj propoxta qui elej fizéro, maj oj atolejmado continuaru mi incomodanu. Ah pára né ,oh! Quanu elej viru qui nô ia di dá negóciu, um delej apregunto:
- I prá acasalá o Fabojuno com uma fêmiazinha, quanto tu quéj Ixtepô?
Cumé qui podi né, oh! Ô nunca nô tinha pensado naquilo. Máj pra vê aquelij degranido bachá a crixta, ô chutei o pau da barraca i falei:
- Déj mil reau por cruza, môj quiridu.
Me arrombei todo , rapaj! Tinha unj vinti i trêj criadori querenu um filhote do mô curió, ansin memo, credo! Ô pensei rápido i omentei a propoxta pra cinqüenta mil reau. Ningém correu! Então ô disse que aquela missidade di fêmia ia se demaj até pro Fabojuno. Ansim, si oj pessoal nô si importassi, o Fabojuno ia tê di inxcolhé a parcerinha di amor. Todo mundo concordô.
Bom, fizêmu uma baita roda com aj vinte e trêj gaiolha di fêmia i coloquemo a gaiolha do Fabojuno bem no meio, ainda coberta. Foi tirá a proteçã di pano i o bichinho enveredô a cantá dum jeito, qui nój nem prextemo maj atençã naj fêmia. Só dava Fabojuno, quiridu.
Foi quanu uma rapariga piquena falô pro pai:
- Porque aquele passarin tá cantanu pruma monturea di gaiolha vazia in vorta?
Só ai qui nój vimo qui aj passarinha tinho tudo dexmaido di emoçã in oví o Fabojuno, rapaj. Dava di vê aj curiózinha tudo deitadinha, suxpiranu incantada, no fundo daj gaiolha. O pióri é qui nô deu di botá oj passarinho in cria.
Máj o Fabojunu si sentiu-se o dono do pedaço, inxfregô a asinha na nuca i sortô um cantinho seco bem ansim:
- Brigaduuuuu!

Traduzindo.....

Meu Querido,

Não quero me exibir e nem contar vantagens. Mas tenho de te dizer algo importante: Existen muitos curiós bons, mas espetacular somente um. O Fabojuno! Ele é fenomenal. O pássaro canta muito e não importa aonde, pode ser lá em casa, na rua, no curiódromo. Seja onde for, ele mostra a fibra que tem.O Fabojuno já ganhou tudo que é competição em Florianópolis, São Paulo e no Rio de Janeiro. Nós já fomos a muitos lugares e sempre voltamos do mesmo jeito. Eu com a gaiola sobre a mão espalmada e ele corcunda de tanta medalha pendurada no pescoço.
Só para você ter idéia de como ele é vou te contar algo! Durante o último concurso que fomos, o Fabojuno cantou tanto, que os outros passarinhos colocaram as asas sobre a cabeça para cobrir as orelhas e não ouvir o Fabo.
Os proprietários dos pássaros ficaram encantados com o show do Curió da Barra da Lagoa. E choveu proposta pelo Fabojuno. Ofereceram uma camionete quatro por quatro, um sítio em Paratí, um apartamento na Beira Mar. Mas eu nem fiquei tentado. Recuzei todas as propostas que me fizeram, mas continuaram insistindo. Contudo, quando viram que não tinha negócio, um deles perguntou:
- E para cruzar o Fabojuno com uma fêmea, quanto você quer?
Como pode? Eu nunca havia pensado na possibilidade. Mas para vê-los desistir, falei um preço bem alto:
- Dez mil reais por cruza.
Me dei mal. Havia uns vinte e três criadores querendo um filhote do meu curió, assim mesmo. Pensei rápido e aumentei a proposta para cinqüenta mil reais. Ninguém desistiu! Então eu disse que aquela imensidão de fêmeas seria demais, até mesmo para o Fabojuno. Assim, se eles não se importassem seria bom deixar o curió escolher sua parceira do amor. Todos concordaram.
Bem, fizemos uma enorme roda com as gaiolas das fêmeas e colocamos a gaiola do Fabojuno, ainda coberta, bem no centro. No que se retirou a proteção de tecido, o curió começou a cantar de tal forma que deixamos de prestar atenção nas fêmeas. O Fabojuno tomou conta do lugar.
Foi quando uma menininha perguntou ao pai:
- Porque aquele passarinho está cantando para um monte de gaiolas vazias ao redor?
Só ai percebemos que as fêmeas haviam desmaiado de emoção em ouvir o fabojuno. Elas estavam deitadas, suspirando encantadas, no fundo das gaiolas. O ruim, nisto tudo, é que não deu para acasalar os passarinhos.
Mas o Fabojuno sentiu-se o bonzão, esfregou a asinha na nuca e soltou um canto seco bem assim:
Brigaduuuuu!